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Pedro Henrique Saraiva Leão

Segunda idade da fralda
Autor: Pedro Henrique Saraiva Leão

 A segunda idade da fralda é como denominamos aquela à qual voltamos quando, perclusos (sem poder nos locomover) quedamos presos, ao leito hospitalar ou doméstico, por doença temporária ou definitiva.  Tornamos a ser bebês, à mercê das enfermeiras e cuidadores. Tal aconteceu-me há pouco no Hospital São Carlos, onde por dois meses estive entre o céu e a terra, da UTI para o apartamento. Tudo começou com quadro de diverticulite sigmoideana, aguda-sobre-crônica, antiga conhecida, pois me auto-medicava, ficando pauci (pouco), ou oligosintomático por algum tempo, de tanto me esquecendo passada a crise.
                Médico é assim, subestimando suas queixas, tentando curar-se, como na tradução da “Vulgata” de S. Lucas, 4,23: “Médico, cura teipsum”! Nessa oportunidade, minhas providências não vingaram. Internado às pressas, já apneico (sem respirar) fui de pronto entubado, por divina intervenção, pelo colega internista César Pontes, providencialmente e por felicíssimo acaso por ali passando. Morrerei devendo-lhe a vida! A laparotomia (abertura do abdome) (Dr. Jean Crispin, um dos meus primeiros assistentes), revelou uma fístula sigmóido-vesical (para a bexiga) dentro de uma coleção purulenta.
               A essa operação seguiu-se outra, uma revisão, “branca”, como dizemos, sem outro fato notório. No pós-operatório prolongado surgiram além das escaras perianais, úlceras cutâneas por dejeções repetidas, e ocorreram as “esmeraldites”, intercorrências estas mais comuns entre os médicos, cujo anel de formatura ostenta uma esmeralda. Todo este drama num paciente já afônico mercê da traqueostomia (tubo para respirar) que lhe praticaram. Mas Deus ainda não me queria de volta, e obrou o milagre, tendo-se feito representar pelo colega antes mencionado com sua eficiente equipe, capitaneada pelo Dr. André Albuquerque, sempre assessorada por obsequiosas e competentes enfermeiras, e até maqueiros.
           Essas, algumas santas pastoras, nos banhavam no leito, removendo nossos dejetos alvíneos, trocando a fralda, pois, e – dolorosamente – substituindo os emplastros unguentos, cremes, pomadas aplicados nas partes pudendas. Para meu constrangimento, inicial. Mulheres que quase maternalmente cuidaram de mim, aqui com o sentido agregado de “care” (do inglês), afetiva ou fraternalmente interessadas. Vale ressaltar que toda essa prestimosa, operosa assistência foi disponibilizada e facilitada pelos colegas Wilson Meireles e F. Monteiro, proprietários, e pela senhora Márcia Real, zelosa administradora daquele pequeno grande hospital.
                Sobremaneira, sobressaiu a dedicação, a devoção quase da minha mulher, Mana, o maná que Deus me deu. Nossos louvores e nossa gratidão perenes a todos os que cuidaram de mim. O escritor Milan Kundera (1921) no seu famoso “A Insustentável leveza do Ser” (1984) afirmou haver uma recorrência nas nossas vidas, pois estamos pregados na eternidade, como Cristo esteve pregado na cruz!

Pedro Henrique Saraiva Leão
Médico.  Secretário Geral da Academia Cearense de Letras